Depois das 18:30 horas de ontem, teve lugar a primeira Noite de Poesia de 2011 no Instituto Cultural Moçambique-Alemanha (ICMA). Senti-me particularmente honrado por estar num lugar onde as palavras eram arremessadas sem censura. Um dos poucos lugares que já conheci! Mas, mais interessante foi a intervenção – incisiva mas positiva – de Nataniel Ngomane (Professor Universitário na área da literatura e Director da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane). Eis um extracto do seu discurso, quando lhe pediram que falasse sobre a poesia apresentada no ICMA que “não tem sido alvo de muita pesquisa […] sistemática”:
[…] Qual é a noção que a gente tem de declamar? O que é declamar? […] Eu ouvi quase todos a dizerem “Vou declamar.” “Vou declamar.”, passaram todos a ler […]
É um pouco difícel a gente tentar mapear algo que não se mapeie… Não é? Não é o problema só da poesia; não é problema só da escrita de hoje ou da declamação; e tudo de hoje; é um problema global. A poesia e o próprio homem está ligada à sociedade, e nós hoje vemos as convulsões sociais, políticas, económicas, etc; nós vivemos num mundo de caos. Seria interessante a gente explorar a ideia e o conceito do caos para perceber o que nos rodeia e o que nós produzimos, porque nós, muitas vezes, temos a tendência de representar o mundo que nos rodeia. Então, comparar a geração de hoje (estes jovens que passaram aqui) à Anabela, ao Jaime Santos; podiamos ir mais atrás, encontrar a Anita Magaia, o Calane da Silva; e podiamos ir muito mais atrás. Nós tínhamos que comparar primeiro os momentos históricos e tentar perceber o que aconteceu em cada momento e o que está a acontecer neste momento.
[…] Eu acho que há um problema… de referências; há um problema de referências. Eh… Em parte, eu estou satisfeito em estar aqui a homenagear Orlando da Conceição, porque Orlando é uma referência; é uma fonte aonde os mais novos deveriam ir beber para poder andar mais por si. Eu conversava com aquela coisa linda ali no canto, que é a minha filha … (Aplausos), e eu perguntava a ela: “Filha, como é que é aquela frase que eu sempre te pergunto e nunca fixo?” […] Ela disse: “Na vida, nada se perde, nada se forma, tudo se transforma.” (Aplausos). Ok, gente! Nenhum de nós hoje aqui está a descobrir a pólvora; nenhum de nós aqui está a descobrir a pólvora, ninguém vai descobrir a pólvora. […] Nós temos que beber das fontes das diferenças para podermos transformar Moçambique melhor. Da mesma forma que sugamos o seio da nossa mãe para crescer e ficar fortes […]; nós precisamos de continuar a beber de fontes. Às vezes podem nos faltar fontes locais; há fontes externas. Os nossos poetas, nalgum momento, foram beber fontes de fora; foram beber no Brasil; foram beber em Portugal; beberam na Inglaterra; beberam na Índia. […] Estou falar de montes, montes de referências, não só na poesia; também na narrativa; também no cinema, no teatro, na música […]. Há uma frase que não preciso de perguntar à minha filha, porque é da literatura. […] “O leão alimenta-se de carne de carneiro mas nem por isso se torna carneiro.” […] Aqui está a metáfora da digestão … da digestão cultural. Nós devemos beber das outras culturas para produzir a nossa cada vez mais forte. […] A cultura e a construção da poesia passa por esse beber das fontes para nos tornarmos mais fortes.
[…]

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