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Tuesday, July 12, 2011

O País que Controlou o Mundo

Em tempos imemoráveis, diz a lenda, havia neste planeta um país (chamado Os Esforçados) muito próspero; na verdade, Os Esforçados eram um país mais próspero do que qualquer outro país. Todavia, este facto podia confundir aqueles que desconhecessem a sua história. Pois, apesar de ser o país mais próspero do planeta, não era o primeiro a ser formado. Havia países bem mais antigos e que tinham sido pioneiros no desenvolvimento, mas pararam no tempo. De facto, como se os seus habitantes, de repente, tivessem decidido gozar o que tinham produzido até então, esses países deixaram de avançar. Em contrapartida, o país chamado Os Esforçados foi avançando. Avançou tanto que ultrapassou o nível de desenvolvimento de todos os outros países - mais antigos e contemporâneos seus. Depois, nunca mais parou de se desenvolver, graças ao esforço dos seus habitantes - daí se chamasse ao seu país Os Esforçados.

Os Esforçados faziam esforço extraordinário em todas as áreas possíveis de imaginar - sim, em todas as áreas possíveis de imaginar. Os Esforçados preocuparam-se em erradicar a fome, as doenças, a injustiça, a corrupção - problemas concretos que os seus habitantes enfrentavam. O país não era de todo justo em relação aos outros países. Nesta área também, Os Esforçados esforçavam-se em ludibriar aqueles com que tinham relações comerciais - outra área concreta. Tudo o que era concreto Os Esforçados preocupavam-se em dominar ao seu favor. E conseguiam. Neste plano, Os Esforçados superavam todos os outros países - mais antigos e contemporâneos seus. Mas, Os Esforçados foi além do plano do concreto. Como se tivessem sido amaldiçoados para trabalhar, os habitantes dOs Esforçados faziam esforço para imaginar problemas que ainda não existiam. Para estes problemas, também antecipavam soluções.

Enquanto que Os Esforçados se preocupavam com disparates - como consideravam os povos dos outros países -, estes gozavam a vida. “Afinal, vivemos para quê?” - ironicamente perguntavam eles. Gozavam a vida os povos que tinham conseguido resolver problemas concretos básicos - como Os Esforçados; mas, também gozavam a vida os que ainda enfrentavam problemas ainda críticos. Gozar a vida era a moda de então. O único povo que estava fora da moda era o povo dOs Esforçados. Era de consenso que gozar a vida era mais fácil do que se esforçar. Mais difícil ainda (e desprovido de sentido - para os contemporâneos dOs Esforçados) era fazer esforço para resolver problema que nem sequer era problema. Os Esforçados pareciam realmente amaldiçoados.

Os Esforçados, que acreditavam na possibilidade de existirem seres semelhantes a si fora do seu planeta, previram ataque seu. E prepararam-se para se defenderem do ataque; previram o embate catastrófico entre o seu planeta e um corpo celeste qualquer. E prepararam também defesa para a eventualidade. O povo dOs Esforçados previu tanta coisa que era, aos olhos dos outros, sinal de puro desconhecimento do sentido da vida. O sentimento do desconhecimento do sentido da vida tornava-se mais forte quando os outros povos pensavam no dinheiro que Os Esforçados gastavam nas previsões e busca de soluções para problemas inexistentes. Requeria-se dinheiro de verdade. Mas povo dOs Esforçados, de bom grado, deixava que parte do seu dinheiro fosse encaminhado para a pesquisa. Todo o povo parecia alucinado; ninguém se questionava sobre a importância dessa pesquisas imaginária…

Quando começaram as pesquisas imaginárias, os outros censuraram os habitantes dOs Esforçados - censuravam-nos mais os povos dos países que não conseguiam resolver os seus problemas básicos. O dinheiro usado pelOs Esforçados para disparates, argumentavam eles, devia ser usado para resolver problemas reais de pessoas reais. Os únicos que não censuraram Os Esforçados foram eles mesmos. Pois eles (pre)viam coisas “reais” que os outros não (pre)viam. O povo dOs Esforçados era firme. A censura dos outros não o abalava e prosseguiu. Assim, os seus críticos afrouxaram: deixaram de censurar Os Esforçados e passaram a zombá-los - como se tivessem legitimado as suas pesquisas. Da zombaria, surgiu o nome Os Esforçados que passou a ser o nome do seu país. Zombavam Os Esforçados enquanto gozavam a vida. Este era o sentido da vida para eles. “Porquê fazer esforços desnecessários?” Até o esforço necessário era evitado: “Para quê… se tudo já foi inventado?”

Todavia, finalmente chegou o dia em que toda a gente viu o que povo dOs Esforçados previa. Rapidamente, a tarde ia ficando estranha a cada instante até que o sol deixou de iluminar o planeta. Estava à vista de todos finalmente o que Os Esforçados previram havia muito tempo. Apareceu uma tempestade nunca antes vista: os mares agitavam-se estrondosamente; as árvores que não caíam ficavam sem folhas; a areia movia-se tal poeira… Um assombro geral tomou conta dos habitantes do planeta (como se todos tivessem deixado de respirar por alguns minutos.) Não era para menos: vinha em direcção de todos uma enorme bola de fogo cada vez mais crescente e ruidosa para pôr na história o planeta (ou, pelo menos, os seres viventes existentes nele). O assombro era geral de facto, mas Os Esforçados, que tinham visto aquilo na sua imaginação, estavam relativamente calmos. As armas extemporaneamente sofisticadas que tinham criado para distribuir tal ameaça deixavam-nos mais calmos. Todos os outros habitantes do planeta ficaram também mais calmos quando viram a enorme bola de fogo em pedaços divertidos. Ficou claro para todos que o estrondo do disparo tinha saído do país chamado Os Esforçados. Mais calmos, todos conseguiram respirar de novo, mas com um misto de alívio, lágrimas, remorsos… Sem excepção, todos ficaram gratos aOs Esforçados. Ninguém precisava de lhes dizer que a sua sobrevivência devia-se aOs Esforçados. A vida de todos os povos do planeta passou a pertencer aOs Esforçados. Para todos, isto estava claro. Os Esforçados dominaram todos os outros países e tornoram-se mais próspero ainda até que surgiram gerações para quem esta história não estava tão clara…

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